Segunda-Feira, 13 de julho de 2020.


O AMOR COMO SUSTENTAÇÃO

Uma característica é bem marcante nas chamadas ciências duras (hard, do inglês): a necessária separação entre sujeito e objeto. Nas outras ciências (soft, do inglês), muitas vezes o engajamento entre sujeito e objeto é tão forte que fica nítida a predominância da subjetividade sobre a realidade. Na primeira, o alheamento é justificado pela imparcialidade da realidade, de maneira que o sujeito é que decide o que fazer com o conhecimento que a ciência gera, enquanto na segunda a intervenção muitas vezes parecer ser a tônica, dado que a realidade é quase sempre perversa. Evidentemente que cada pesquisador, cientista, grupo de estudiosos e campo do conhecimento tem toda a autonomia e direito de decidir o que fazer, como fazer e para que fazer, conjunto de posições que conformam as visões de mundo de cada um. Porém, para efeitos de uma Nova Educação, o que permite o acesso ao cérebro para aprendizagens mais efetivas é o que chamamos amor. Neste sentido, este ensaio tem como objetivo mostrar como o amor sustenta as atividades cognitivas.

Amar é cuidar. Aquele que ama age de uma forma tal que o produto de suas ações seja direcionado para melhorar a qualidade de vida do outro e de si mesmo. Isso implica em admitir que fazemos as coisas para os outros. Isso não quer dizer que o sujeito não se beneficie daquilo que faz, descobre e cria. O sujeito é, quase sempre, o primeiro beneficiário. A extensão do benefício para os outros só se torna possível porque tem nele, sujeito, um elemento essencial demonstrativo da eficácia daquilo que está sendo levado ao outro.

Se encontro uma nova modalidade de equilibrar receitas e despesas, primeiro faço o teste em mim; se os resultados benéficos pretendidos se confirmarem, levo ao conhecimento dos outros com a intenção de gerar benefícios a eles. O mesmo vale para a criação de um novo tipo de cálculo matemático, demonstração da existência de partículas mais fundamentais da realidade ou que determinado fato histórico apresenta nova nuance. O Bem, portanto, é o fundamento do cuidar, é a essência do amor. Quem ama faz as coisas com a intenção deliberada de provocar o bem, melhorar a qualidade de vida, autoestima e inúmeros aspectos da vida humana individual e associada.

A Nova Educação visa a justamente isso: aprende-se para fazer o bem. O aprender se reveste, então, de dois aspectos teleológicos, ambos centrados no amor. É um processo amoroso, porque representa uma doação de grande parte da vida para a aquisição do aprendizado que, por sua vez, se desdobrará em ações em prol do sujeito e da coletividade, que representa o primeiro aspecto, assim como também permite o acesso a diversas regiões do cérebro, o que facilita e proporciona aprendizados mais profundos e substanciais. As atividades pedagógicas e cognitivas, quando estruturadas no amor, se fazem com mais plenitude, abrem quase todos os canais de comunicação possíveis para com os recursos neuronais.

Tente aprender alguma lição com raiva, profundo desgosto ou pavor. Dificilmente vai conseguir algum êxito. E, se obtiver, o resultado auferido é muito inferior do que o alcançado de forma prazerosa, amorosa. Quando queremos aprender algo que nos dá prazer, as energias motivacionais se renovam e se multiplicam à medida que avançamos, como se novas e mais reluzentes luzes fossem focadas para aquilo que desconhecemos, desvelando-o, tornando-o claro aos nossos sentidos e mentes. Gostar muito, com profunda intensidade, de aprender ativa regiões do cérebro que, de outra maneira, não é possível. O amor faz com que substâncias cerebrais penetrem regiões não alcançadas de outra forma, formando novos caminhos de aprendizagens.

O amor, na aprendizagem que a Nova Educação provoca, é muito parecido às paixões humanas. O indivíduo apaixonado vive o tempo todo pensando no objeto de sua paixão. Se almoça, fica imaginando o que sua paixão está almoçando ou se o está fazendo; se dorme, fica imaginando como sua paixão está dormindo; se se diverte, fica sonhando momentos de diversão com sua paixão. De forma ainda mais intensa, fica elaborando mil coisas possíveis de serem feitas para deixar sua paixão contente. É capaz de fazer quase que qualquer coisa para extrair um singelo contentamento de sua paixão. Muito parecido é o resultado que provoca a aprendizagem com amor. O sujeito aprende porque é belo, prazeroso, verdadeira epifania. E a beleza, prazer e sensação infinita de felicidade é decorrente do impacto que se sabe que aquilo que fazemos provocará no outro. Sabemos por que experimentamos em nós mesmos esses resultados.

É que amar é fazer aos outros aquilo que gostaríamos que os outros nos fizessem. Essa é a sustentação de toda atividade de aprendizagem que orienta a Nova Educação: colaborar com a felicidade do outro. Isso colocará por terra, por exemplo, o que se chama de análise crítica ou qualquer tipo de criticismo, porque ali não tem amor. Quase todo o criticismo é calúnia, difamação e injúria ao mesmo tempo, só que de forma velada, inconsciente. Também coloca em xeque novamente a ideia de que o conhecimento é neutro e que os sujeitos têm maturidade para utilizá-lo como bem entender. Há conhecimentos bons, há conhecimentos maus e há conhecimentos que podem ser bons ou maus. O conhecimento é um continuum.

A forma mais segura de gerar conhecimentos é a ancoragem no amor. O amor é sempre bom. Se causar males, não é amor. É pelo conhecimento gerado sobre e através do amor que conheceremos com profundidade o escopo do próprio mal, que é ausência de amor. Isso quer dizer que não é fazendo estudos sobre o analfabetismo que vamos gerar a alfabetização, mas aprendendo muito e com adequação sobre a alfabetização que vamos eliminar o analfabetismo; não é estudando as diferentes formas de corrupção que vamos chegar a uma sociedade altruísta, mas aprofundando conhecimentos altruístas que eliminaremos a desonestidade. Em todos os casos, contudo, há sempre a prevalência de fazer o bem como estruturador da aprendizagem.

Categoria artigos, articulista

Dr. Daniel Nascimento e Silva

PhD, Professor e Pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM)




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