Terça-Feira, 23 de janeiro de 2018.

A alegria da verdade

Alguns dias atrás, li numa revista que, nos Estados Unidos, bem longe daqui, foi feita uma pesquisa sobre as mentiras. O resultado foi que  91% das pessoas reconheceram que mentem ao menos uma vez por semana. Obviamente é possível que tenha mentido também o 9%, que disse que nunca mente. Os principais motivos para “não” dizer a verdade foram: conseguir alguma vantagem, esconder algum erro cometido, enfeitar uma conversa, falar mal de alguém e, sobretudo, encobrir outra mentira. Hoje, através das redes sociais, sabemos que existem muitos tipos de mentira: aquelas infantis, facilmente descobertas pela própria cara das crianças, as mentiras sociais e políticas propagandead as sempre para o bem do povo e, também, as duvidosas “delações premiadas”, onde a verdade revelada parece mais um quebra-cabeça do que algo seriamente esclarecedor. Não devemos esquecer que a “verdade” muitas vezes é a “nossa” verdade, ou seja, algo que nós mesmos afirmamos ou entendemos como tal. Nada de novo. A busca da verdade sempre será fadigosa; exigirá esforço, confrontação, talvez alguém que nos ajude a reconhecê-la. A condição fundamental, porém, sempre será aquela de querer encontrá-la, de não desistir, de ter paciência e coragem para procurá-la, custe o que custar.

Podemos gastar a vida inteira, ter companheiros de caminhada, mas ninguém poderá nos substituir nessa busca. Na prática, quer sejamos conscientes ou não, essa procura coincide com aquilo em que cada um de nós acredita e para o qual está disposto a arriscar a própria existência. Podemos chamá-lo de sonho, ideal, sorte, ilusão ou, se me permitem, também de fé. Ninguém consegue viver sem buscar, sem ter algo em que está convencido que valha a pena acreditar e esperar. Tudo isso pode parecer inútil filosofia, mas é só pensar quanto gastamos de tempo e energias atrás do dinheiro, por exemplo, para entender como seja verdade o fato de ter algo que motive o nosso agir.

No evangelho de Mateus do domingo da Epifania sempre encontramos os famosos “sábios magos” vindo do Oriente, guiados por uma misteriosa estrela que aparece e desaparece. Encontramos também Herodes, o mentiroso, que declara querer adorar o novo rei, quando, na verdade, está com medo e inveja dele. Os sumos sacerdotes e os mestres da lei, com as Escrituras em mão, têm as suas certezas e chegam bem perto da verdade, mas não a reconhecem. Por fim, também os “sábios magos” preferem esconder aquilo que encontraram e voltam para casa por outro caminho. Mas isso, depois de experimentar uma “alegria muito grande”, quando encontram o menino com Maria sua mãe.

É essa “alegria” plena que somente a “verdade” verdadeira, se podemos dizer assim, pode nos oferecer. A aventura daqueles sábios é a história de cada pessoa humana: um caminho em busca de uma verdade que deve ser procurada, encontrada e reconhecida. A questão é que, ao longo dos caminhos da vida, encontramos muitas verdades, algumas tão brilhantes e fascinantes, que nos parecem já o fim da busca. É o brilho do ouro, do sucesso, da fama, da posição social. Por aí paramos, mas nenhum ser humano e nenhum bem material pode satisfazer plenamente a sede de luz e de sentido que precisamos em nossa vida. Bem sabemos que nada vamos levar deste mundo; no enta nto, agarramo-nos a “estrelas” de brilho passageiro, salva-vidas que afundam junto conosco. O nosso Deus não se impõe, simplesmente brilha para quem o sabe ver. É o brilho do amor sem limites, sem falsidades, sem interesses. É puro dom. É uma oferta tão especial, tão “promocional” que nós, pequenos e gananciosos, duvidamos. Estamos tão acostumados a mentir, a enganar e a sermos enganados que os nossos olhos já enxergam mal, suspeitam do engano e da mentira onde não deveriam. Um brilho temporário nos parece mais confiável do que a verdadeira luz. E o “ouro” dos sábios magos? Eles o deixaram lá, o doaram. Voltaram para casa livres, leves e felizes.

Categoria artigos, articulista

Dom Pedro José Conti

Bispo de Macapá 




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