Quarta-Feira, 19 de setembro de 2018.

As três recompensas

Um homem, bastante rico e famoso por sua retidão, soube que um jovem, filho de um seu amigo, viajaria para uma terra longínqua onde ele tinha morado muitos anos antes. Esse senhor tinha deixado, por lá, bons amigos que o tinham ajudado em situações difíceis e, agora, queria aproveitar para enviar-lhes algum sinal da sua gratidão. Por isso, ele preparou três caixas com mil, dois mil e cinco mil moedas de ouro. As três recompensas deviam ser entregues pessoalmente a cada um, conforme a sua von tade, por alguém de plena confiança. Foi ter com o jovem viajante e lhe explicou o que devia fazer.

- Ao primeiro envio mil moedas, porque ele me livrou da miséria salvando os meus bens. Ao segundo, duas mil moedas porque, certa vez, salvou a minha vida, livrando-me de uma morte certa. Ao terceiro, enfim, entregarás as cinco mil moedas.

O jovem ficou curioso e perguntou: - O que fez de tão extraordinário esse terceiro amigo para merecer uma recompensa tão maior que a dos outros?

- Ele conseguiu desfazer uma grande intriga contra mim. Eu seria acusado injustamente e preso como ladrão. A ele devo o meu nome puro e respeitado. Meu jovem, acima de tudo, acima das riquezas e da nossa própria vida, nós devemos colocar a nossa honra!

Na página do evangelho, deste domingo, encontramos a versão de Marcos da bem conhecida pergunta de Jesus aos discípulos: “Quem dizem os homens que eu sou?”. Depois de ter escutado as primeiras respostas, ele indaga de novo: “E vós, quem dizeis que eu sou?”. Pelo jeito, a Jesus interessa mesmo o que os seus seguidores pensam e acreditam dele. Os outros, ainda, podem ter opiniões diferentes, equivocadas ou incertas, mas os discípulos verdadeiros não podem vacilar. A fé deles deve ser firme, capaz de ir além do escândalo da cruz. Uma maneira de entender o “messianismo” de Jesus puramente humana não é suficiente. Poderia ser confundido com um plano de poder, de dominação, algo grandioso e fascinante, mas...“demoníaco” aos olhos de Deus. Existe uma diferença insanável entre o projeto – pensamento! - do Reino de Deus, que o “Messias” Jesus veio inaugurar, e as articulações dos poderosos deste mundo. Esses querem salvar a suas vidas e sacrificam a vida dos outros, escravizando e explorando. Ao contrário, os discípulos do Mestre Jesus devem estar dispostos a doar até a própria vida para que os demais irmãos e irmãs tenham uma vida melhor, mais digna e humana.

A grande pergunta do evangelho “Quem é Jesus?” continua valendo para os cristãos de todos os tempos, para nós também, chamados a dar um norte diferente às nossas vidas conforme as respostas que a ela vamos dando. No fundo, todos queremos ganhar alguma coisa e se forem bens materiais deste mundo, valiosos e abundantes, melhor ainda. O céu? Vamos deixar para depois. Se pensamos assim, Jesus só pode ser entendido como um “padrinho” poderosos que sempre nos deve socorrer. Se n&atilde ;o souber fazer isto, para que serve ser seus seguidores obedientes e fiéis? Continuamos interesseiros e gananciosos, mais preocupados em “salvar” a nossa vida que a “perdê-la”.

A “vida doada de Jesus na cruz” sempre será o maior empecilho para acreditar e confiar nele. Na realidade, para quem tem fé, ele é o nosso maior libertador e salvador. Não falo da salvação do pecado e da morte, mas, de fato, dos ídolos enganadores deste mundo. Estamos dispostos a perder tempo, saúde e dinheiro, para ganhar mais dinheiro, fama, poder ou prestigio. Não o fazemos com tanto entusiasmo e dedicação para ajudar os outros, para resgatá-los de situa ções desumanas, para aprender e ensinar a todos a não julgar as pessoas pela roupa, a conta no banco ou a posição social. A grandeza do ser humano está na sua capacidade de amar não de dominar, de fazer acontecer o bem, não só de recebê-lo! Jesus nos ensinou isso com a sua vida doada. Como poderemos recompensá-lo? Ele não precisa. Mas, ao menos, podemos agradecê-lo. Ele “salvou a nossa cara” da vergonha do egoísmo, de uma vida já morta.

Categoria artigos, articulista

Dom Pedro José Conti

Bispo de Macapá 




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