Quinta-Feira, 14 de novembro de 2019.

A auréola perdida

Aqueles que chegavam ao Paraíso entravam num salão onde, depois das felicitações de São Pedro, passavam na frente de um balcão para receber a auréola, a qual todos os santos têm direito. As auréolas estavam todas bem arrumadas em cima do balcão e se posicionavam na cabeça dos santos automaticamente. Eram feitas de luz e calor, e sempre na medida certa. De repente, um anjo distraído derrubou a pilha das auréolas no chão. Todas foram recolhidas, menos uma. De nuvem em nuvem, ela foi caindo e chegou à terra. Não podia ficar sem dono. Começou a procurar algum santo ou alguma santa. Iniciou pela grande catedral. Mas entre os turistas e os participantes absortos, não encontrou ninguém. Viu uma grande passeata, mas nenhum santo. Encontrou ruas, lojas, comércios, escolas, bancos, quarteis, todos com nome de santo ou de santa, mas santo, em carne e osso, nenhum. Voou sobre algumas casinhas. Sentado na frente de uma delas, um velhinho chorava com a foto da esposa falecida. Passou um rapazinho que ia para a escola e parou.

 – Ela se foi, agora estou sozinho – disse o velhinho levantando os olhos. O rapaz sentou-se ao lado dele e apoio a sua cabeça no ombro do homem.

– Viva! – gritou a auréola e aterrissou na cabeça do menino.

Quase todo ano celebramos, uma perto da outra, a solenidade de Todos os Santos e Santas e a comemoração dos fiéis defuntos. Em ambos os dias, somos convidados a olhar para o alto. Entregamos os nossos irmãos falecidos à terra, mas os pensamos na paz do Senhor, de algum modo, com ele, “no céu”. Os Santos e as Santas, também, pelos seus merecimentos e virtudes, devem estar por lá. No entanto este “céu” não é um lugar, é uma nova condição de vida, um encontro com Alguém único e extraordinário. Pensamos ao alto por costume e por entender que Deus deve estar mesmo além de tudo e de todos, mas também este “além” não é um lugar que se possa localizar e medir. É algo tão novo e diferente que não sabemos como expressar com as palavras aquilo que nunca vimos antes.

Para não errar demais, podemos desistir de imaginar como será, mas é difícil desejar e amar profundamente algo – ou Alguém - que nem podemos descrever. Quando, porém, não conseguimos dizer como é uma certa realidade, para entendê-la, serve ao menos dizer como, com certeza, ela não é. Por exemplo, ninguém pensa que o Paraíso seja algo triste. Deve ser muito alegre e feliz. Por lá todas as lágrimas serão enxugadas (Ap 21,4) e todos serão consolados para sempre. Igualmente não pode ser algo escuro e sombrio. Na IV Oração Eucarística dizemos que Deus habita “em luz inacessível”. Luz significa vida, atividade, clareza em conhecer o sentido dos acontecimentos e das coisas. Para Deus nada fica escondido, nem o menor gesto de amor. O bem sempre resplandece e ilumina ao seu redor. Por fim, o Céu não pode ser algo espantoso e feio que entristeça e amedronte o coração. Deus só pode ser a beleza infinita que encanta, atrai e anima.

Pensar nas coisas “do alto” não significa fugir da realidade, mas, ao contrário, ter um modelo para ser imitado e uma meta para ser alcançada. Esperar o “céu” de Deus Pai nos liberta das amarras das coisas materiais, da inveja e da cobiça das coisas que não tivemos neste mundo. A fé nele nos faz aguardar muito mais. Alegria, luz e beleza são desejos que motivam a nossa vida, estão dentro de nós; só falta buscá-los. A plenitude de tudo isso somente está em Deus, mas Jesus sempre falou de “vida plena” e abundante (Jo 6,58). Uma vida nova não mais passageira, imperfeita e mortal. Por isso, a Igreja nos aponta Santos e Santas que, de mil maneira diferentes, foram sinais desta vida verdadeira. Eles e elas souberam abrir caminhos de amor, de paz e justiça, muitas vezes através do sofrimento pessoal e oferecendo até a própria vida. A santidade não é algo impossível. Está ao alcance de todos porque a ela fomos chamados desde o dia do nosso batismo. É feita de pequenos gestos, basta que tenham o gosto e a luz do céu já aqui na terra: um abraço, um carinho, uma lágrima, um silêncio. O que vale é o amor e o Amor já é a Vida de Deus. Também se a auréola não pode ser vista.  

Categoria artigos, articulista

Dom Pedro José Conti

Bispo de Macapá




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