Jornal Evangélico
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Iraguacema L. Maciel
Dra em Antropologia/Lingüística
Vinculada à SEED-GEA

 

Movimento das Mulheres Indígenas
no Contexto Amazônico

           

Na guerra ou na paz, a convivência humana deve ser pautada por princípios étnicos de dignidade e humanidade (Campos, 1997).

CONTEXTUALIZAÇÃO

         O movimento das mulheres indígenas pode ser refletido a partir das formas de participação desse segmento se consideramos a origem da sua ação política desde o ato de acompanhar o cônjuge,  posteriormente através das evidências individuais e, depois por meio da formação de organizações em grupos ou associações.  

         A primeira forma foi importante para dar apoio e fortalecer ao movimento indígena.  Não podemos entendê-lo como sem importância, dado que o papel da mulher indígena na manutenção das ações  reivindicatórias foi sempre fundamental. Percebe-se  a mulher em uma relação de co-responsabilidade pela continuidade das lutas junto aos seus líderes  e comunidades locais.  Não somente no papel da garantia de algumas condições básicas para realização de encontros e reuniões (como na infra-estrutura e recepção local) como para estimular a continuidade dos atos políticos do seu grupo.  

         Aqueles contextos de lutas possibilitaram às mulheres indígenas experiências necessárias para as suas futuras ações políticas e amadurecimento com base em reflexões acerca das suas vivências.  

         A outra forma de participação consiste nas evidências individuais de diversas mulheres que se sobressaíram por novas conquistas ao enfrentarem fazendeiros em defesa da terra do seu povo entre outras questões. Também é importante dar credibilidade para essas ações que evidenciaram a representatividade das mulheres como líderes locais.

         Um terceiro momento foi através das suas organizações em grupos ou associações. Sendo que umas das primeiras foi a Associação das Mulheres Indígenas do Alto Rio Negro - AMARN, criada em 1984, no Estado do Amazonas, com a finalidade de apoiar as empregadas domésticas indígenas que eram vítimas de um sistema de exploração do seu trabalho.  

         No contexto nacional, a participação das mulheres indígenas amazônidas tem se ampliada consideravelmente. Embora tenha havido uma certa resistência do movimento indígena em aceitar a participação efetiva das mulheres assumindo papéis de liderança. 

         Reflitamos que a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira foi criada em 1989, sendo que a inclusão de um setor dedicado à questão da mulher ocorreu na VII Assembléia Geral da COIAB, realizada no período de 28 a 31 de maio de 2001, na cidade de Santarém, Pará, tendo a denominação de Departamento de Mulheres na COIAB.

         Esse fato já é resultado de várias frentes de lutas das mulheres, representando também uma conquista frente ao movimento indígena. No I Encontro das Mulheres Indígenas da Amazônia Brasileira, realizado no período de 26 a 29 de junho de 2002, em Manaus, sob a coordenação da COIAB, da Associação das Mulheres Indígenas do Rio Negro (AMARN) e da Associação das Mulheres Indígenas Saterê Mawé (AMISM), foi oficializada a criação desse departamento.  A representatividade foi significativa envolvendo setenta lideranças de vários povos (Aparai, Apurinã, Arapasso, Bakairí, Baniwa, Baré, Dessana, Gavião, Guajajara, Guarani, Karajá, Macuxi, Mayoruna, Mura, Poyanawa, Pira-Tapuia, Tariano, Terena, Tirió-Kaxuyana, Ticuna, Tukano, Sateré Mawé, Wanano, Waiana, Waiãpi, Wapichana, Xavante, Xerente, Xocleng. A visibilidade do   movimento das mulheres indígenas, garantiu-lhes credibilidade e força reivindicatória em âmbito regional e nacional.
        
MOVIMENTO DA MULHER INDÍGENA
O movimento das mulheres indígenas surge no contexto da interação entre as próprias mulheres e organizações ou representações (órgãos públicos) não indígenas em um processo de fomento da temática de gênero.  Dando-se enfoque à mulher como alvo de políticas públicas específicas e de forma de organização também peculiar voltada para uma pauta reivindicatória própria.

         No processo de ampliação das demandas dos povos indígenas, incluem-se as novas necessidades do segmento das mulheres. Entendemos que essas novas prerrogativas surgem com a inserção de novos papéis no contexto familiar e social que foram sendo desempenhados pelas mulheres nas áreas social e profissional; no   primeiro caso, elas passam a serem chamadas para discutirem as suas demandas nas áreas da educação e da saúde; em segundo ao assumirem as funções de professoras, de artesãs e agentes de saúde. 

A ação organizativa das mulheres indígenas é uma conseqüência dessas novas experiências que as envolveram em projetos e ações que lhes colocaram diversas questões de ordem social, educativa e política e exigiram reflexões e atos reivindicatórios. Neste novo cenário, os cônjuges em várias situações passam a ser o acompanhante das suas esposas em eventos de caráter profissional e político, colaborando no cuidado com os filhos (as).  

A construção desse movimento faz-se quando as mulheres ampliaram seu campo de atuação no seu grupo local e passaram a assumir novas responsabilidades frente ao seu contexto social.  A criação das suas formas organizativas é o resultado desses fatores, sejam eles de participação em diferentes eventos que salientaram as suas demandas enquanto gênero feminino; seja com o seu desempenho em novos papéis sociais na sua realidade ou grupo local que também lhe atribuiu credibilidade.
        
OS PROBLEMAS QUE AFETAM AS MULHERES       
As mulheres indígenas têm enfrentado muitas dificuldades, não sendo diferente em outros povos e culturas, embora cada realidade apresente dimensões de complexidades várias.  Cada povo enfrenta seus problemas dentro de seus limites; entretanto, tem sido importante a articulação entre as diversas sociedades na busca de solução para seus problemas comuns.

         Os encontros das mulheres indígenas possibilitaram levantar os problemas que as afetam, sendo tomados  como prioritários na busca de resolução e melhorias para a sua qualidade de vida.  As maiores dificuldades no contexto familiar são violência doméstica (física e psicológica), alcoolismo crescente entre homens e jovens (marido e filhos), falta de respeito ao direito da mulher muitas vezes por parte do companheiro.

Por outro lado,  elas enfrentam problemas na área profissional e geração de renda pela dificuldade para escoamento dos seus produtos, pela falta de mercados e preço justo para a venda dos artesanatos; pela ausência de infra-estrutura e apoio governamental para o desenvolvimento de novas atividades produtivas; pela falta de capacitação e orientação na busca de financiamento para a comercialização dos produtos e pela escassez de matéria-prima a fabricação dos artesanatos sendo necessária à definição de um apoio institucional (estatal ou municipal). Ainda, nesta área, poucas  mulheres atuam na saúde e na educação, faltam cursos para formarem mais agentes indígenas de saúde para trabalharem junto às mulheres fazendo exames  ginecológicos, trabalhar na orientação para a prevenção do câncer de mama, colo de útero etc; na prevenção das DST/AIDS; e na formação de professoras para os níveis Fundamental,  Médio e Superior.

No âmbito da saúde da mulher, ocorre violência sexual e gravidez precoce por falta de orientação e de cumprimento das leis que protegem às mulheres, o desconhecimento sobre as doenças sexualmente transmissíveis pela maioria das mulheres, a falta de acompanhamento médico específico e periódico para mulheres indígenas, a ausência de uma política nacional específica para a mulher indígena, a falta de postos de saúdes, de enfermeiros (as) ou de serviço de saúde permanente nas aldeias, entre outros.

         No caso do fortalecimento do movimento das mulheres indígenas, faltam recursos para as atividades de conscientização, organização, articulação e mobilização.
No tocante à relação social e política entre homens e mulheres indígenas, ainda ocorre a desvalorização dos esforços e dos trabalhos das mesmas na base do movimento indígena.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

        O processo de interação, vivenciado por um considerável grupo de  mulheres indígenas,  tem como conseqüência  a união das mesmas para conquistar melhorias em  dimensões mais amplas  que contemple a totalidade das mulheres indígenas.

         Por outro lado, tal movimento dará fortalecimento às lutas das organizações   indígenas e indigenistas na resolução dos seus problemas. Percebe-se  a união de forças que garantirá avanços significativos para todas as etnias.    

         O presente cenário de relações interétnicas pressupõe o estabelecimento de novas estratégias de diálogos e de negociações em diversos âmbitos (político, educativo, profissional, legislativo, etc.)  como único caminho viável à construção de uma pluralidade cultural com respeito e valorização dos saberes  de todos os povos.

         A inclusão da mulher indígena na participação da definição de políticas públicas, em diferentes campos da vida profissional, cultural e social, estabelecerá novos parâmetros de relacionamento igualitário que beneficiará toda a sociedade.   

         Essa nova forma de relacionamento promoverá a parceria com outras organizações e entidades beneficiando o movimento das mulheres indígenas na esfera local, regional e nacional. 



 
 
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