QUAL A DIFERENÇA ENTRE FAZER UMA BOQUINHA, UM LANCHE OU TER COMPULSÃO ALIMENTAR?
- O QUE É UMA BOQUINHA?
É a absorção quase automática de alimentos em pequenas quantidades fracionadas, às vezes por duração prolongada, e até permanente (podendo estender-se ao longo de todo o dia), sem desejo de um alimento específico. As boquinhas são de, alguma maneira, uma atitude de “deixa pra lá”, em relação aos alimentos disponíveis. A pessoa cisca num pacote de biscoitos abertos, come pedacinhos de queijo enquanto prepara o jantar ou come batatinhas e amendoins antes do aperitivo. Enfim, pega de tudo que esteja “ao alcance da mão”. Geralmente, essa compulsão visa preencher um vazio afetivo ou amenizar pensamentos desagradáveis. Admitida com facilidade (seja socialmente, seja individualmente), com raridade acompanha-se de culpa.
Por que então considerar uma simples boquinha como algo patológico? Porque ela não corresponde necessariamente a uma necessidade fisiológica. Nesse tipo de comportamento há uma impulsividade mal controlada que já não se encontra no domínio da normalidade.
É possível estabelecer o risco de cada um? Quando uma boquinha pode colocar o peso em risco? Quando o organismo não está em hipoglicemia e não tem necessidade imediata de energia, qualquer aporte alimentar vai automaticamente ser armazenado como gordura de reserva. Até porque os alimentos ingeridos são frequentemente compostos da associação de glicídios (que levam à produção de insulina) e de gorduras (ex: queijo ou frios, biscoitinhos, chocolates, docinhos, tortas, batatinhas, salgadinhos, etc.). E há aí um hábito de ingeri-los demais antes mesmo de se sentir satisfeito.
Lembre-se: tudo depende não somente do que se consome e em quais quantidades, mas também a reação de cada um, algo que está ligado ao seu metabolismo.
- O QUE É LANCHE?
È o consumo sistemático de merendas entre as refeições. Diferentemente da boquinha, quando “cisca-se” distraidamente um alimento que aparece pela frente, o lanche constitui uma verdadeira mini refeição. Essa tendência foi favorecida pela comercialização de múltiplos alimentos prontos, baratos e de gosto agradável.
Esse distúrbio espalhou-se mais entre os jovens e crianças, atingindo até 90% das crianças em idade escolar (que é encorajado pelos próprios pais, pois são eles que fornecem a merenda). Os lanches são praticamente programados e podem fornecer cerca de 30% das necessidades energéticas diárias.
O consumo de merenda não é forçosamente negativo, quando constitui um lanche que permita fracionar os aportes diários. De fato, ingerir cinco refeições ao longo do dia não tem influência negativa sobre o peso, se o aporte calórico diário total permanecer estável. Quem pode se beneficiar melhor como os lanches são os esportistas, as mulheres grávidas, crianças e pessoas idosas, pois esses têm além da necessidade de aportes mais fracionados, um aporte energético mais elevado também.
O risco é ver esses alimentos serem dados a torto e a direito, num contexto de desorganização alimentar. Preste atenção: a criança come pouco ou come mau no café de manha? Pouco importa, por que ela leva biscoitinho com refrigerante para o lanche do recreio das 10h. Ela não gosta de sentar-se à mesa e comer direito? Nada de grave, pois ela tem salgadinhos co suco, barrinhas de chocolates, ou então sorvetes. Será se estamos certos em pensarmos assim? Será se devemos substituir as principais refeições por lanches? Não esqueça que hábito é questão de costume.
Esses produtos raramente são bem concebidos no que tange à dietética, mas a publicidade canta seus méritos e tende a fazer crer que eles são indispensáveis para a boa forma, que promovem a energia salvadora, que fornecem as vitaminas necessárias, enquanto são apenas uma fraca compensação da refeição, são mal concebidos e desequilibrados. Eles apenas tapeiam temporariamente a hipoglicemia induzida quando se pula uma refeição ou quando se come alimentos mal escolhidos, que não promovem a saciedade de longo prazo.
- O QUE É COMPULSAÕ ALIMENTAR?
É uma alimentação de difícil controle, que força a pessoa a comer com urgência algo muito apreciado, a fim de obter um prazer imediato. Em 40% dos casos, trata-se um alimento achocolatado. Essa compulsão é uma resposta do organismo que busca moléculas necessárias à fabricação de neurotransmissores: por exemplo, um alimento apreciado e fonte de prazer faz secretar endorfina (morfina que o corpo sabe fabricar), neurotransmissores que promovem uma sensação de bem estar e euforia. É um fenômeno de adaptação ao estresse. Infelizmente, quando essa resposta ultrapassa seu objetivo e torna-se obsessiva, pode levar a bulimia.
Existe um caso particular de compulsão alimentar: a carência de serotonina cerebral, que provoca alterações do humor associadas a desejos ou necessidades urgentes de consumir doces. Nesse transtorno, o açúcar estimula a secreção de insulina, o que facilita a passagem para o cérebro do triptofano, precursor bioquímico da serotonina, neurotransmissor que diminui a ansiedade. Na verdade, o açúcar é capaz de acalmar a dor do recém nascido e aliviar as dores menstruais. Essa ação sobre o sofrimento físico e moral pode levar a um distúrbio de comportamento, porque, como a morfina, isso pode levar a um tipo de dependência. “Os doces substituem o objeto que falta e acabam sendo procurados por si mesmos. Paradoxalmente, é para escapar à dependência do ser ausente que o indivíduo prefere entrar na dependência de doces”. O comportamento torna-se patológico quando comer açúcar é a única resposta a uma situação de estresse, de tédio, de conflito ou de angústia.
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