Jornal Evangélico
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Renivaldo Costa
Jornalista e Educador.

Sobre joelhos

De que ângulo um cachorro enxerga o mundo? E uma criança? Tanta gente fica imaginando esse tipo de coisa que já surgiu até um parque de diversões com móveis gigantes para que os adultos se sintam como crianças vendo as coisas da sua casa. Inclusive o cinema se rendeu ao assunto. Que o diga Steven Spielberg com sua animação "Vida de Cão", cheia de câmeras subjetivas do ponto de vista do personagem-Cão.

Porém, e os joelhos? Ninguém nunca parou para pensar em como esses aparentemente inofensivos entes arredondados enxergam?

Porque, sim, os joelhos também enxergam. Mais: têm sentimentos e personalidade! Basta olhar com um pouco mais de atenção as pessoas ao nosso redor para sabê-lo.

Há, por exemplo, os joelhos curiosos: aqueles virados para fora, um para cada lado, para não perder absolutamente nada do que se passa nos 180º que os cercam. Alcoviteiros debruçados na janela. Talvez não sejam muito amigáveis, afinal, passam a vida sem olhar um para a cara do outro.

No extremo oposto, temos os joelhos apaixonados - aqueles que não resistiram à convivência diária, na alegria e nos tombos, no calor e no frio, e se renderam à paixão. Passam a vida olhando um para o outro, olhos nos olhos. Como todos os apaixonados, ficam um pouco desequilibrados e transmitem essa sensação a seus sujeitos, que encontram uma certa dificuldade em parar de pé...

Curiosamente, também costumam provocar discórdia entre os pés abaixo deles, que trocam chutes sem parar. Bem, talvez seja culpa dos próprios pés, ciumentos e invejosos de tão intenso amor.

Não podemos nos esquecer também dos joelhos CDFs - aqueles que andam o tempo todo olhando para frente, como cavalos marcialmente desfilando (ou apenas puxando carroças, quem sabe?). São joelhos doutrinados pelo sistema, militarmente treinados, incapazes de um movimento original. Formam a grande massa de manobra da sociedade das articulações.

No Curupira, encontramos um caso à parte. Originalidade folclórica.

Não obstante essas variações individuais dos ângulos de visão, a riqueza do universo dos joelhos fica ainda maior quando consideramos sua vida em sociedade.

Que dizer, por exemplo, dos joelhos bregueiros? Chegados numa relação entre casais, porém volúveis ao extremo, assim que encontram um parceiro fixo e se encaixam, já começam a olhar para as possibilidades que estão à frente. Costumam enxergar tudo um pouco tremido e rodando.

E os joelhos que podemos, carinhosamente, apelidar de muçulmanos? Comuns entre as crentes e os escoceses, vêem o mundo através dos panos flutuantes das saias. São um grupo em franca expansão, desde que as saias de altura média voltaram a ser moda.

E os joelhos tímidos, então? Geralmente barbados, passam a vida escondidos atrás de calças e sem enxergar nada. Quase uma réplica da Caverna de Platão!

Enfim, exemplos não faltariam para povoar mais várias páginas - afinal, como toda sociedade, a dos joelhos também apresenta inúmeros grupos e sub-grupos, com características as mais peculiares. Mas não sejamos exaustivos.

Contudo, não podemos terminar esse texto sem falar de uma última classe de joelhos, que tem justamente a visão mais curiosa de todas, porque convive com aqueles cujo ângulo de visão todos ficam imaginando: os pais de crianças e os donos de cachorros. Aqueles do primeiro parágrafo...



 
 
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