Jornal Evangélico
do Amapá

TEMPO AGORA

                                     
 
 
 
 
 
   Nome:
  
    E-mail:
  
 
   Cadastrar
   Descadastrar
 
 
 
Renivaldo Costa
Jornalista e Educador.

 

SE HOJE FOSSE SÁBADO...

Se hoje fosse sábado, eu acordaria bem cedo e desde o prenúncio da aurora, eu já começaria a me preparar para ti. Sairia na "ponta-dos-pés" do nosso quarto - para não atrapalhar teu sono - e faria a primeira ablução do dia. Depois, cobriria meu corpo daquelas essências aromáticas a base de alecrim que tu compraste pra mim e que causam esta rima incidental. De repente, eu me olharia no espelho e me veria aquele menino, que de repente começou a te amar. Eu até riria desse momento pois lembraria desses anos que separam nossa idade e me daria conta de que a vida tirou bem mais da minha do que da tua vitalidade.

Se hoje fosse sábado, eu iria para a cozinha e faria dessas guloseimas que se faz quando se ama. Ovos mexidos, bacon, sucos e torradas. Eu lembraria da tua inépcia para a gastronomia e dos teus comentários a propósito  do meu esmero em preparar nossas refeições.

Se hoje fosse sábado, eu entraria em nosso quarto e te acordaria com um ósculo e acariciaria tua tez. Abriria a janela e faria com que tua pele sentisse os primeiros raios de sol desse dia. Nosso quarto se transformaria numa festa de luzes que expulsaria os últimos indícios de que há pouco era noite. Eu fitaria teu rosto cândido e tentaria te roubar um sorriso. Faria uma dessa caretas esdrúxulas e tu ririas amiúde.

Se hoje fosse sábado, eu sentaria na cama e ficaríamos a conversar sobre nós. Hoje não tem trabalho, não há textos a escrever nem reportagens a serem feitas, nem gente esclerosada querendo falar das coisas do mundo, da fome, dos conflitos e dessas brigas de gente que quer o governo. Hoje e aqui só há nós, como se as paredes desse quarto fossem os limites de nosso mundo e como se esta cama fosse nosso reino. Eu supostamente seria teu súdito e tu, uma rainha mandona que quer prioridades.

Se hoje fosse sábado, falaríamos de tudo que vier na cabeça. E aí lembraríamos dos teus ciúmes por causa dos olhares lascivos da nossa vizinha e daquele dia em que quase perderias a calma por causa de uma menina que me abordou na rua e, de repente, me deu um beijo. A verdade é que eu gosto do teu ciúme, mas não gostaria de ser alvo da tua ira.

Se hoje fosse sábado, eu me queixaria daquelas dores renais, dos problemas de memória, e tu, timbrosa como nunca, me lembrarias dos fitoterápicos a base de abacaxi e tiamina que comprei na farmácia do IEPA mas nunca tomei.

Se hoje fosse sábado, nós sairíamos para almoçar fora. Veríamos o Rio Amazonas e encontraríamos algumas de tuas amigas que te ririam num sorriso cúmplice de felicidade. Sentaríamos pra ver os barcos que passam e eu lembraria de ter lido que uns escafandristas nadam pela nossa costa em busca de espécies fluviais exóticas.

Se hoje fosse sábado, iríamos na casa de amigos comuns, contaríamos piadas, riríamos sobejamente e quando o dia já estivesse por findar, com a chegada do arrebol, aí lembraríamos de quando víamos o crepúsculo vespertino da janela da tua casa.

Se hoje fosse sábado, eu faria dessa noite a mais sublime e terna de todas e lembraria de um daqueles poemas do poeta Vinícius, que tu sempre gostaste de escutar e dos quais eu era um dedicado declamador.

Se hoje fosse sábado, eu faria tudo isso. Mas hoje ainda é uma manhã de segunda-feira. O sábado, contudo, um dia há de vir, não necessariamente no sétimo dia.

 



 
 
Amapá Digital © 2007 • Todos os direitos reservado