Energia elétrica, um erro sem precedentes
Fernando Abrahão
O erro nas tarifas de energia elétrica dos consumidores de Mato Grosso do
Sul é sem dúvidas um marco lamentável na história do setor elétrico brasileiro, o tempo
passa e o fato vai tomando a robustez de uma tormenta sem precedentes, ganhando
forma no cenário econômico nacional e internacional.
O Grupo EDP – Energias de Portugal veio à público nos últimos meses
prestar esclarecimentos aos mercados brasileiro e português, depois de forte queda das
ações da ENERSUL, empresa que compõe a holding, e operara no Estado. O Grupo
transacionou a empresa a fim de conter o olho do furacão, negociando a mesma por
quase um quinto de seu valor de mercado, tendo por base a cotação de um ano atrás.
Contudo, muitos ainda não sabem ou não conhecem a extensão do
problema, nem o que de fato deu origem ao erro e a cobrança em excesso nas faturas
de energia elétrica dos usuários e principalmente o que provocou a bolha financeira de
quase R$200 milhões de reais nas contas dos mais de 730.000 consumidores do Estado e
como isso pode alcançar o resto do país.
Pois bem, vamos ao erro e seus desdobramentos. No livre mercado, onde
as empresas operam em ambiente concorrencial, os agentes econômicos por si só
equilibram as forças de oferta e procura, os consumidores podem optar por uma ou
outra empresa, assim o equilíbrio econômico-financeiro está posto, portanto, o retorno
financeiro está relacionado diretamente com número de clientes atendidos ou número
de bens transacionados ao longo de um determinado período.
Já no mercado onde operam as concessionárias de energia elétrica,
exploração de serviço público de distribuição de energia elétrica, a estrutura de
mercado é naturalmente de monopólio, ou seja, só um agente econômico presta o
serviço, não há concorrência, portanto o ambiente deve ser controlado(regulado) a fim
de evitar ganhos extraordinários, de tal modo a remuneração não é estabelecida pelo
número de clientes atendidos ou pelo número de Kwh vendidos, a remuneração na
verdade é controlada pelo Estado(União), por meio de um ente regulador(ANEEL).
Neste contexto, as empresas que prestam serviço de distribuição de
energia elétrica obtêm lucro tendo por base o valor dos ativos da empresa, que são os
bem que estão sob concessão (cabos, postes, transformadores, veículos, máquinas,
equipamentos, etc.), ou seja, quanto mais a empresa tem em patrimônio, bem e
investimentos maior será a base de cálculo de sua remuneração ou sua base de
remuneração regulatória. É justamente neste ponto que reside o erro ocorrido em Mato
Grosso do Sul.
O órgão regulador credencia empresas especializadas em avaliação
patrimonial, para que estas prestem o serviço às concessionárias, a sua livre escolha. A
empresa escolhida e contratada pela empresa que explora a distribuição de energia em
Mato Grosso do Sul, responsável por realizar tal avaliação, a Advanced Appraisal, super
dimensionou os ativos da empresa concessionária, ou seja, deu aos ativos valor superior
ao que efetivamente estes teriam. Como a empresa recebe sua remuneração tendo por
base este Laudo, ela acabou auferindo vantagem excessiva no período de 2003 à 2007.
A fim de clarificar qualquer dúvida quanto à correta interpretação destes
fatos, tem-se o teor do Voto do Ilustre Diretor da ANEEL, Sr. Romeu Donizete Rufino, na
Resolução 572/2007, que muito bem caracteriza o erro, quando informa que: “Neste
Laudo cada Cabo foi valorizado de sua quantidade física ... os valores de fábrica
unitários foram indevidamente multiplicados ... acarretando um erro no processo
de avaliação desses bens, no laudo apresentado pela Enersul” e ainda “o laudo
elaborado pela empresa avaliadora e apresentado pela concessionária induziu a
fiscalização econômico-financeira da Agência à validação de uma base de
remuneração incorreta, resultando em incremento das tarifas ... e na auferição de
um adicional de receita indevido pela concessionária”.
Aos poucos as informações vão sendo disponibilizadas à imprensa e o
ambiente de propagação das informações vai se construindo no cenário nacional. O erro
nas faturas de energia dos consumidores do Estado teve origem em um Laudo de
Avaliação. Não diferente da empresa que opera no Estado de Mato Grosso do Sul as
demais 67 concessionárias do país também percebem sua remuneração tendo por base
um Laudo de Avaliação.
O fato mais preocupante é que destas, 16 tiveram seus laudos produzidos
pela mesma empresa que avaliou a ENERSUL, entre esta estão a LIGHT, SULGIPE,
AMPLA, AES SUL, AES ELETROPAULO, COELCE, COCEL, FORCEL, COELBA, CELPE, RGE,
ENERGIPE, ESCELSA entre outras.
Segundo o Acórdão nº 2428/2008 do Tribunal de Contas da União, em
sessão extraordinária de 20 de julho de 2008, os ministros determinaram à ANEEL, que
esta promova a revisão dos laudos de avaliação destas 16 concessionárias a fim de
identificar eventuais incorreções.
De tudo, o que mais causou preocupação foi que, em análise técnica do
Processo ANEEL nº 48.500.005028.2007-11, que apurou o erro de 2003 em Mato Grosso
do Sul, identificou-se que o erro está contido na precificação de cabos e não na sua
quantificação dentro do quadro de ativos, o que significa que há sérios indícios de que o
erro encontrado em Mato Grosso do Sul possa estar contido nos demais Laudos de
Avaliação das outras 16 concessionárias avaliadas.
Assim, como já previsto, o episódio instado em Mato Grosso do Sul, que
antes se mostrava como uma pequena fissura na estrutura do setor elétrico brasileiro,
agora já demonstra ser uma profunda e incontrolável fenda, que ganha dia a dia espaço
no cenário nacional, podendo levar à pique os diretores do órgão regulador, a
metodologia e a estrutura de regulação do setor no país, culminando num colapso
financeiro das empresas que operam no sistema elétrico brasileiro.
Fernando Vaz Guimarães Abrahão*
Economista, Perito, Auditor e Avaliador
*Economista Perito, Auditor e Avaliador Judicial, atuou
como economista chefe nas discussões técnicas em
Brasília no Processo de Revisão Tarifária da
concessionária Enersul, representando o Conselho de
Regional de Economia do Estado de Mato Grosso do Sul e
coordenou os estudos técnicos apresentados pelo
CORECON-MS à ANEEL.
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