Crise elétrica no Amapá pode ser agravada por decisões judiciais imprudentes e soluções paliativas

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Para o especialista, a situação caótica no estado nortista requer o trabalho e atenção de muitos especialistas e conhecedores do sistema elétrico brasileiro e o afastamento da diretoria de uma agência inteira deixaria não só o Amapá, mas o Brasil, sem comando no setor elétrico. Segundo Ivo Pugnaloni, a COPEL pode ter dado um exemplo a ser seguido com a chamada de geração distribuída da semana passada.

Curitiba, novembro de 2020 – O Estado do Amapá continua sofrendo com uma sequência de decisões malfeitas e impensadas. Além das dificuldades de lidar com um sistema energético frágil, uma decisão judicial, de primeira instância, impensada, continua deixando a situação dos moradores ainda mais frágil. “O afastamento de uma diretora inteira da Aneel e do Operador Nacional (ONS) não é nada lógico e não resolve o problema, só o agrava”, comenta o engenheiro eletricista Ivo Pugnaloni, diretor da ENERCONS consultoria em energia e ex-presidente da COPEL DISTRIBUIÇÃO

            Para o técnico a situação caótica no estado nortista requer o trabalho e atenção de muitos especialistas e conhecedores do sistema elétrico brasileiro, o afastamento de uma agência inteira deixaria não só o Amapá, mas todo o Brasil, sem comando no setor elétrico. “Deixar uma agência, com essa responsabilidade, sem ninguém também não é algo correto, nem mesmo inteligente e não resolve o problema. Isso é ruim para o país. E parece uma decisão pouco pensada.”, avalia.

            Segundo Pugnaloni, o desabastecimento energético do Amapá é um tema de muita importância para o país todo já que as mesmas condições precárias estão presentes em vários pontos do Brasil. “Quando não há redundância, ou “backup” de alternativas, em uma determinada região, quando não existe geração de energia nas proximidades, quando não aproveitamos os recursos energéticos renováveis de cada região, não existe a possibilidade de prever e contornar acidentes ou faltas. Assim, o risco de um determinado conjunto de municípios ou de parte de municípios e mesmo de estados inteiros, como Roraima, Amapá e Acre, ficar sem energia torna-se muito grande”, destaca. “Os fatos provam que o que está ocorrendo no Amapá, pode acontecer em qualquer lugar onde não exista geração local e redundância em termos de linhas de transmissão”, completa.

            As decisões judiciais que interferem diretamente em um setor tão específico e técnico podem causar ainda mais danos e atrasos nas resoluções do problema, explicou Pugnaloni, lembrando que ironicamente, no mesmo dia da decisão judicial que afastou toda a diretoria da ANEEL, inclusive um diretor empossado há apenas dois dias, a agencia reguladora e a COPEL, de forma pioneira, haviam lançado uma chamada pública para projetos de geração renovável no Paraná.

“Chega a ser irônico que isso aconteça no mesmo dia (dia 18 de novembro), em que a COPEL que foi pioneira na eletrificação rural de baixo custo nos anos 80, executando o maior programa estadual daquele setor; que também foi pioneira na geração distribuída em 2012 e agora pioneira na complementação trifásica do seu sistema rural em 2020, tenha aberto, coincidentemente essa chamada pública pioneira. Que é especialmente voltada para empreendimentos de geração renovável de pequeno porte, ligados diretamente nas redes de distribuição, sem passar pelas subestações, reduzindo custos e perdas.  E isso com uma autorização especial da ANEEL, que também participa dessa experiência, que embora chegue tardiamente, deverá ser repetida nos próximos anos e em outros estados”.

O engenheiro explica que isso foi muito bom, pois no Amapá a energia chega por meio de apenas uma linha conectada ao Sistema Interligado Nacional, contando alguns sistemas de geração diesel, a maioria obsoletos e que geram energia por custos dez vezes maiores do que as hidrelétricas. “Imaginemos se, no futuro, no Amapá ou em qualquer estado, nós tivéssemos várias usinas hidrelétricas de pequeno porte, com tecnologia de ponta, usando pequenos reservatórios e mesmo sem reservatórios, de baixo impacto ambiental, entregando essa energia nos lugares onde mais precisamos. Onde o sistema estiver mais deficiente. Num caso assim, com essa consciência e metodologia de planejamento, se essa única linha do SIN tivesse alguma falha, não haveria problema nenhum, pois teríamos apenas que aumentar a geração das usinas locais. Além disso, você não teria linhas de transmissão tão extensas, com milhares de quilômetros, sujeitas a incêndios nas matas e a todos os tipos de problemas. Teríamos aproveitado capital local e empresas locais para as obras civis, para gerar emprego e renda, consumo de bens e de energia ali mesmo. As pessoas comprariam mais eletrodomésticos, teriam uma vida melhor, contariam com os reservatórios para promover o lazer, piscicultura, atividades náuticas, turismo, entre tantos benefícios promovidos pela geração de energia sustentável”, completa.

“Tomara que a ANEEL, movida por esses infaustos que tendem a acontecer cada vez mais, consiga convencer outras distribuidoras para que conheçam, aperfeiçoem e sigam o exemplo da COPEL quanto a essa chamada publica de geração distribuída. Sem dúvida isto vai estimular o setor privado a investir na redundância e na segurança do fornecimento energético”, concluiu Pugnaloni que também foi diretor de planejamento da COPEL holding.

 



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